Por oito anos consecutivos, minhas férias de infância tinham local definido: Garopaba. Mais do que local definido, por oito anos consecutivos ela teve um número definido: 17. Esse era o número do quarto de hotel que ficávamos todos os anos. Não podia ser outro. “Esse é o melhor quarto”, meu pai explicava. Nervoso, toda vez que ligava para fazer a reserva, frisava que tinha de ser esse quarto. Quando chegávamos da viagem no hotel, ele perguntava na recepção se era mesmo o 17. Pra mim sempre foi algo estranho de ver, pois eu nunca entendi porque o 17 foi eleito o melhor de todos pelo meu pai. Tinha uma linda vista para o mar, assim como todos os outros, e era do mesmo tamanho também. Ele não era um quarto especial, mas ficou claro para mim que, para um homem obcecado por rotina como o meu pai, o 17 era o melhor quarto de todos, pois era o quarto com o qual ele estava acostumado.
Tanto que, no ano em que completaríamos nove anos “morando” no quarto 17 nas férias do verão, meu pai se atrasou na reserva e, ao ligar, descobriu que ele estaria ocupado. Ele engasgou no telefone. “Deve haver algum engano!”. Mas não. O quarto 17 não era mais nosso.
Viajamos até Garopaba com meu pai certo de que, ao chegar, poderia desfazer a situação. Mas, ao chegar, deparou-se com a realidade: para nós, restava o quarto 19. A insatisfação no rosto dele era visível. Embora o quarto fosse exatamente igual, nada ali era familiar para ele. Teve insônia os 15 dias de férias e, toda vez que cruzava com os novos “inquilinos” do quarto 17, frisava baixinho para nós: “gente sacana”. Como se tivessem surrupiado para ele parte das nossas lembranças de verão.
Renata, Porto Alegre





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