sempre que me instalo num quarto de hotel trato de desfazer as malas. me angustia a ordem cartesiana que as camareiras impõe nas camas, cadeiras e toalhas que estão a minha espera. a primeira valise que abro é sempre aquela menor em que carrego a “penteadeira” rapidamente disponho os cremes, perfumes, maquiagem e toda sorte de adereços sobre as bancadas disponíveis – da maneira mais aleatória possível. como se tudo aquilo estivesse sendo usado desde sempre, pra quando regressar ao quarto não me sentir tão estrangeira neste lugar. o micro-caos me agrada.
certa vez num hotel em boa vista, após realizar meu ritual saí do quarto a fim de cumprir com os compromissos que me aguardavam completamente despreocupada. ao regressar para H.U. já da porta avistei todas as minhas flores e adereços de cabelo ordenados por cor, colares dispostos lado a lado. a visão infernal dos meus perfumes sobre um console enfileirados por tamanho. me senti tão invadida naquele momento, nua e remexida. nunca uma camareira havia ordenado meus pertences. refiz meu caos com a sensação de desconforto de estar invadindo o espaço de alguém.
na manhã seguinte indo para o café, a recepcionista me perguntou se estava tudo bem com as acomodações – e eu que não falo antes das 10h da manhã, ainda magoada com a invasão do dia anterior, apenas disse reticiente: – a camareira é muito caprichosa!- ao que me respondeu sorridente a moça quase sem respirar: – é a melhor arrumadeira deste hotel! ela está conosco há 20 anos já ganhou prêmios… – e a gasguita teceu uma lista de elogios a funcionária. controlando meu mau humor matinal querendo o pescoço da maldita camareira olhei bem a recepcionista que sorria excessivamente e disse: – peça a ela que é tão exemplar que apenas arrume a cama e recolha as toalhas! não gosto que mexam nos meus colares! virei na direção do restaurante.
depois desse dia, durante a semana que se seguiu a minha estada na cidade cada vez que voltava ao quarto encontrava uma composição com os meus objetos. a camareira toda vez que limpava o quarto – imagino eu – não se continha em não reconfigurar uma certa ordem na minha “penteadeira”.
Camila Lima Barreto, Porto Alegre




