A dona Matilde escreveu um relato sobre a pauta que fiz na casa dela. Resolvi publicar:
Já era a quinta jornalista que eu estava esperando naquele dia. De manhã vieram os do rádio e da TV. Agora seria uma fotógrafa. Por que simplesmente não me deixam em paz? Esse barulho todo também tinha um lado positivo, estava ganhando tempo e quem sabe algumas opiniões a favor.
O relógio marcava cinco da tarde. Mal o ponteiro dos segundos tinha completado a primeira volta das cinco, a campainha tocou. Pelo menos essa era pontual. Andei até a porta sem pressa. Abri. Era uma moça ainda jovem, apesar de parecer um pouco mais velha por causa das olheiras e do cabelo preso num rabo de cavalo.
- Dona Matilde, sou a Alice.
- Pode entrar minha filha. Fica à vontade.
Alice entrou e começou a montar a câmera com agilidade. Enquanto encaixava as peças, olhava cada detalhe da sala. Era a primeira pessoa que não emendava uma pergunta depois da outra, antes mesmo de entrar na casa. Mas o silêncio me perturbava tanto quanto o mar de questionamentos.
- Aceita um café? Acabei de passar. Está fresquinho.
Alice tirou o olho da lente da câmera e assentiu com a cabeça. Esboçou um leve sorriso.
- Sem açúcar, por favor.
Sentamo-nos à mesa. Ela me fotografou com a xícara de café nas mãos, nem deu tempo de dizer nada.
- Sabe… Eu vim morar nesse apartamento logo que eu casei. Os meus filhos cresceram aqui e aqui eu vivi toda a minha vida. Eu não quero ir para outro lugar. Preciso disso para continuar vivendo.
A moça não falava nada. Tomava o café e me ouvia como se nada ou tudo de uma vez só fizesse sentido. Acabou o café me olhou nos olhos.
- Obrigada.
Levantou-se e foi até a janela. Tirou uma foto da rua. Voltou e me mostrou no visor da câmera as fotos que tinha feito.
- Sai amanhã no jornal.
Me estendeu a mão. Cumprimentei-a de volta. Já não sabia mais o que fazia menos sentido. O silêncio daquela moça, a minha vontade de continuar ali a qualquer custo ou a minha angústia por algum diálogo.
A moça saiu, insistiu que se eu quisesse as fotos, telefonasse para o jornal. Eu fiquei, sem saber se queria alguma coisa.





